Apoio mantido em meio à crise
A presidente do PL-DF e deputada federal Bia Kicis declarou nesta segunda-feira, 9 de março de 2026, que o partido seguirá apoiando Celina Leão (PP) na disputa pelo Palácio do Buriti, mesmo em meio ao desgaste provocado pela crise envolvendo o BRB e o Banco Master.
Em entrevista ao Metrópoles, a parlamentar afirmou que o apoio será mantido “enquanto isso for da vontade de Michelle”, atribuindo a decisão a um acordo prévio da ex-primeira-dama com a atual vice-governadora do DF.
A fala recolocou no centro do debate a contradição entre o discurso anticorrupção do partido e sua permanência ao lado do grupo político que hoje tenta administrar a crise do banco público local.
A declaração veio poucos dias depois da votação na Câmara Legislativa que aprovou o Projeto de Lei nº 2.175/2026, enviado pelo Governo do Distrito Federal, com medidas para o restabelecimento das condições econômico-financeiras do BRB. A proposta passou por 14 votos a 10, em uma sessão marcada por forte tensão política, protestos e divergências dentro da própria base governista.
Entre os três distritais do PL, dois votaram a favor da proposta do Executivo e um votou contra, cenário que aprofundou a cobrança sobre a direção da legenda no DF.
Votação expôs o racha no PL do DF
A sessão da CLDF deixou exposta a divisão do Partido Liberal em um dos momentos mais sensíveis da política brasiliense. Joaquim Roriz Neto e Roosevelt Vilela votaram a favor do projeto enviado pelo governo, que autoriza a entrega de patrimônio público como garantia para socorrer o BRB, enquanto Thiago Manzoni votou contra.

A divisão foi usada por Bia Kicis como argumento para negar que tenha atuado nos bastidores para exigir dos parlamentares a aprovação da proposta do governo.
No plano político, porém, o resultado teve outro peso: a legenda comandada por ela no Distrito Federal acaba associada não ao salvamento do BRB, mas à destruição do banco estatal, oferecendo munição eleitoral a adversários e colocando em xeque o discurso moral adotado pelo bolsonarismo nos últimos anos.
Na tribuna, o líder do PL na CLDF, Roosevelt Vilela, defendeu a aprovação do projeto com o argumento de que a medida seria necessária para evitar o enfraquecimento ainda maior do banco.

“Temos a responsabilidade de tirá-lo da zona vermelha”, diz Roosevelt Vilela ao articular aprovação de projeto do BRB.
Roosevelt afirmou que, após esclarecimentos do presidente do BRB, se sentia seguro para votar a favor. Também declarou que o cenário atual era diferente daquele em que a Casa discutiu a compra do Banco Master em 2025.
Já Thiago Manzoni fez o movimento oposto. Disse que o comando do banco não apresentou documentação suficiente para convencer os parlamentares e resumiu sua posição em termos duros: sem provas concretas, não se sentia obrigado a acreditar no que estava sendo apresentado.

Deputado Tiago Manzoni votou contra o socorro financeiro ao BRB.
A própria CLDF registrou o grau de confronto político da sessão. Enquanto o governo sustentava que era necessário agir para garantir a continuidade do BRB, parlamentares da oposição e da minoria afirmavam que o projeto não salvaria o banco e ainda colocaria outros ativos públicos do Distrito Federal em risco.

O bloco PSOL/PSB e a bancada do PT votaram contra a proposta.
No plenário, líderes de partidos divergiram frontalmente sobre quem deveria responder pelo tamanho da crise e se a proposta era uma solução emergencial ou apenas uma tentativa de empurrar o problema para frente.
Reação do governo expôs o preço dos cargos no PL
Horas depois da votação, Ibaneis Rocha mandou exonerar indicados de deputados que votaram contra o projeto de entrega de patrimônio público para socorrer o BRB, entre eles Thiago Manzoni. Já os espaços ocupados pelo PL governista permaneceram preservados, incluindo os cargos ligados ao grupo político de Bia Kicis e de Roosevelt Vilela dentro da estrutura do GDF.
Esse detalhe revelou de forma brutal o preço do apoio do PL ao governo Ibaneis: cargos. Em vez de romper com um governo mergulhado na crise do BRB, o grupo de Bia Kicis permaneceu agarrado a mais de 150 cargos dentro da estrutura do GDF.

O que se viu não foi independência, nem coerência com o discurso de combate à corrupção, mas apego à máquina, conveniência política e submissão a um arranjo de poder que o PL diz combater quando está fora dele.
O discurso anticorrupção sob teste
A crise envolvendo o BRB recolocou no centro do debate político do Distrito Federal um tema que costuma mobilizar fortemente a base conservadora e bolsonarista: a coerência entre o discurso de combate à corrupção e as decisões políticas tomadas na prática.
Após a votação na Câmara Legislativa que autorizou o governo a utilizar imóveis públicos como garantia em operações para tentar socorrer o BRB, Bia Kicis afirmou, em vídeo divulgado nas redes sociais, que o partido não teria “nada a ver” com as consequências da decisão e que não existe qualquer tentativa de blindagem no caso.
Segundo ela, o PL teria interesse na apuração dos fatos e, por isso, assinou o pedido de criação da CPMI que pretende investigar as operações relacionadas ao Banco Master.
O problema para a narrativa política do PL no DF é que essa posição de defesa da apuração convive, simultaneamente, com a permanência do apoio a Celina e com o fato de dois dos três distritais da sigla terem votado pelo projeto encaminhado pelo governo para capitalizar o BRB.

Bia Kicis afirma que o PL estará com Celina Leão na corrida pelo governo do DF.
É esse choque de sinais que alimenta a crítica mais dura feita por adversários e também por setores da direita local.
De um lado, o partido tenta manter a identidade de legenda que cobra investigação, denuncia irregularidades e se apresenta como contraponto à velha política.
De outro, no Distrito Federal, o mesmo partido segue integrado a uma engrenagem de poder que agora precisa lidar com os efeitos políticos e financeiros de uma crise bancária de grandes proporções.
A tensão entre discurso e prática ganha ainda mais relevância quando se observa episódios recentes envolvendo a própria deputada.
Em setembro de 2025, por exemplo, Bia Kicis retirou requerimentos apresentados na CPMI do INSS que pediam a convocação do advogado Nelson Willians, amigo do governador Ibaneis Rocha e alvo de investigação da Polícia Federal.

Foto: Nelson Wilians, Antonio Camarotti, governador Ibaneis Rocha e Fernando Cavalcanti.
A sequência de movimentos reforça a percepção de que o discurso anticorrupção — frequentemente tratado como marca identitária do bolsonarismo — passa a enfrentar seu teste mais sensível quando entra em choque com alianças políticas e posições de poder no Distrito Federal.
No Distrito Federal, a crise do BRB acabou colocando sob teste a coerência entre o discurso anticorrupção e as escolhas políticas feitas quando esse enfrentamento atinge aliados.
Pressão eleitoral cresce no DF
A disputa pelo Governo do Distrito Federal em 2026 já vinha sendo desenhada em clima de tensão, mas o caso BRB-Master elevou o nível do desgaste.
A composição de uma eventual chapa com Celina Leão, o papel de Michelle Bolsonaro, a presença de Bia Kicis no tabuleiro eleitoral e o futuro político de Ibaneis Rocha passaram a ser temas inseparáveis.
Nesse contexto, a frase “não tenho nada a ver com isso” ganha peso político muito maior do que um simples gesto defensivo. Ela não surge isolada. Vem acompanhada de uma declaração explícita de apoio à continuidade do mesmo grupo político apontado como responsável pelo prejuízo bilionário imposto ao BRB.
Na prática, a mensagem de Bia Kicis é a de que não aceita carregar o ônus direto da votação, mas também não pretende abrir mão das comodidades oferecidas pelo governo, mesmo que afundado em corrupção.
Para os críticos, esse movimento resume o impasse do bolsonarismo no DF: preservar o discurso de rigor moral sem abrir mão das vantagens e dos acordos produzidos pela política real.
Para aliados, trata-se apenas de separar a responsabilidade de mandatos distintos e de reconhecer que os deputados distritais têm autonomia para decidir seus votos.
O fato é que, no ambiente eleitoral, a nuance costuma importar menos do que a fotografia final.
E a fotografia deste momento mostra Bia Kicis reafirmando o apoio do PL a Ibaneis Rocha e Celina Leão e endossando a entrega de imóveis públicos a preço de banana para tapar o rombo que eles deixaram no BRB.
O que fica para o eleitor
O eleitor do Distrito Federal assiste agora a um enredo em que cargos, alianças, investigações e sobrevivência eleitoral aparecem misturados.
A tentativa de Bia Kicis de marcar distância da votação do BRB não elimina o fato político mais visível: o partido que ela preside no DF segue apoiando a continuidade do grupo que governa a capital, mesmo sob o peso de uma crise que abalou a imagem do banco público e abriu uma frente de desgaste de alcance nacional.
Ao reafirmar a aliança com Celina Leão, Kicis assume um lado claro no tabuleiro de 2026. E, ao dizer que “não tem nada a ver com isso”, tenta ao mesmo tempo desenhar uma linha de proteção pessoal diante de uma crise que, política e eleitoralmente, já respinga em todo o bloco governista do DF.



