A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) deflagrou, na manhã desta segunda-feira (16/3), a Operação Nexus Fractus, que investiga o possível acesso irregular a bancos de dados e sistemas institucionais para espionagem de autoridades e jornalistas.
A investigação teve como alvo Ailton Francisco Ferreira, policial civil aposentado desde 18 de julho de 2013 e comissionado na Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (CAESB) desde março de 2019.

Em janeiro de 2026, Ailton Francisco Ferreira recebeu remuneração de R$ 55.470,83, valor acima do teto remuneratório do DF, fixado em R$ 41.845,49.
Três mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra Ailton: um em Planaltina, em sua residência; outro no Sudoeste, no escritório de sua empresa de investigação; e o terceiro em Águas Claras, na sede da empresa pública onde trabalha.

Foram encontrados R$ 15 mil em espécie na casa de Ailton.
Chama a atenção que a ação venha a ocorrer 12 dias depois de o jornalista Cabo Vitório comparecer ao Núcleo de Controle e Acompanhamento de Procedimentos (NCAP/MPDFT) para relatar que o sistema I2 da Polícia Civil — ferramenta “altamente restrita utilizada para análise investigativa e cruzamento de dados” — teria sido usado para levantar suas informações pessoais em bases policiais e posteriormente divulgadas em grupos de WhatsApp para atacar sua imagem.

Registro do sistema I2 da PCDF usado para tentar associar o jornalista Cabo Vitório a ocorrências policiais — grande parte delas referentes a flagrantes conduzidos por ele quando atuava como policial.
Não é a primeira vez que o nome de Ailton Ferreira aparece ligado a atividades de arapongagem. Em 2017, o policial civil aposentado admitiu ter instalado um rastreador no carro de Élida Souza Matos, então esposa do ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Admar Gonzaga.
Ailton teria sido contratado como investigador particular por Alexandre Luiz Amorim Falaschi, advogado ligado ao ministro, para “levantar informações sobre a rotina” de Élida.

Trecho do depoimento do advogado Alexandre Falaschi na DEAM relata que o então ministro do TSE Admar Gonzaga teria solicitado a contratação do investigador Ailton Francisco Ferreira para acompanhar Élida Souza Matos e levantar informações sobre sua rotina em 2017.
O caso foi registrado na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) de Brasília e acabou chegando ao Supremo Tribunal Federal em razão do foro do magistrado à época.
Em 19 de junho de 2023, já na CAESB, o policial civil aposentado foi designado pela companhia como encarregado pelos dados pessoais de usuários em um Acordo de Cooperação Técnica com a PCDF, o que ampliou ainda mais sua capacidade de obtenção de dados restritos e de circulação em sistemas sensíveis de informação.

O mesmo ocorreu em outras cooperações técnicas firmadas pela CAESB, como com o Banco de Brasília (BRB), com o Instituto de Protesto de Títulos do Brasil – Seção Distrito Federal (IEPTB-DF) e com o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), colocando Ailton na posição de homem com maior nível informacional do DF.

Diante desse cenário, a dúvida que surge é como órgãos como a PCDF e o MPDFT permitiram que tamanha quantidade de informações ficasse concentrada nas mãos de uma única pessoa — ainda mais alguém já associado a episódios de arapongagem.

Um brinde de Ailton Ferreira à omissão institucional.
Pior: espionagem contra uma mulher que, à época, denunciava ter sido agredida com um soco no rosto pelo próprio marido.



