Denúncias de que militares do CBMDF teriam sido obrigados a financiar 8 outdoors no DF que favoreceram politicamente as pré-candidatas ao Senado do DF pelo PL — Michele se silencia e Bia tenta explicar.

A Voz dos Praças denunciou
Nos últimos dias, a A Voz dos Praças publicou uma série de matérias denunciando a existência de um esquema de arrecadação informal destinado ao custeio de outdoors instalados no Distrito Federal, com uso do ambiente militar do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) e de entidades associativas ligadas à corporação como intermediárias.
As reportagens questionaram a origem dos recursos e a dinâmica de captação que resultou na veiculação de peças publicitárias que beneficiaram politicamente, entre outros, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, pré-candidatas ao Senado Federal pelo Partido Liberal (PL-DF).
Diante das denúncias já documentadas, a reportagem procurou Michelle Bolsonaro e Bia Kicis para que se manifestassem sobre o uso de suas imagens em outdoors custeados por arrecadação informal, realizada sob coação no ambiente militar, questionando se tinham ciência prévia quanto à origem dos recursos e à forma de financiamento das peças publicitárias.
Resposta de Bia Kicis à reportagem
Procurada pela reportagem, a deputada federal Bia Kicis enviou a seguinte resposta, por meio de assessor, à A Voz dos Praças:
“A deputada federal Bia Kicis, presidente do Partido Liberal no Distrito Federal, esclarece que sua imagem foi utilizada em outdoor de caráter institucional e de agradecimento, iniciativa de deputado distrital em reconhecimento ao apoio do Governo do Distrito Federal ao Corpo de Bombeiros Militar do DF.
A deputada não participou da contratação nem do custeio do material, tampouco tinha conhecimento sobre a origem específica dos recursos empregados, confiando na lisura das doações realizadas pelos responsáveis.”
A resposta encaminhada por Bia Kicis se conecta diretamente aos fatos que A Voz dos Praças vem denunciando.
Veja-se:
O outdoor teria “caráter institucional e de agradecimento”
Nesse ponto, aparentemente a resposta de Bia Kicis reconhece que os oito outdoors, apresentados como uma “homenagem”, teriam partido do ambiente institucional do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal.

Essa classificação atribui à corporação o papel de emissora simbólica da mensagem, vinculando a imagem institucional dos bombeiros à projeção pública de agentes políticos. O efeito é claro: o prestígio e a legitimidade social associados ao CBMDF são utilizados para potencializar a exposição de figuras políticas em peças de grande impacto visual.
Essa lógica dialoga diretamente com o núcleo das denúncias já publicadas pela A Voz dos Praças: o uso do ambiente militar e de sua simbologia como instrumento de legitimação política, beneficiando Michelle Bolsonaro e a própria Bia Kicis, pré-candidatas ao Senado Federal pelo Partido Liberal no Distrito Federal.
Não por acaso, no checking fotográfico da Visão Painéis, empresa responsável pela veiculação dos outdoors, o CBMDF aparece identificado como cliente — informação que reforça a vinculação institucional atribuída às peças.

Checking fotográfico em nome do CBMDF para veiculação de outdoors entre janeiro e fevereiro de 2026.
Além disso, ao reconhecer a utilização de sua imagem em material classificado como institucional, a resposta evidencia ciência quanto à existência e à finalidade dos outdoors.

Resposta da assessoria da deputada federal Bia Kicis à A Voz dos Praças.
Nesse contexto, a veiculação se insere no campo da publicidade institucional associada à promoção de agentes políticos, hipótese expressamente vedada pela Constituição e pela legislação eleitoral, sobretudo quando realizada por meio de outdoor, independentemente da nomenclatura atribuída ao material.
A iniciativa seria de deputado distrital, não dela
Ao afirmar que a iniciativa dos outdoors teria partido de deputado distrital, Bia Kicis aponta exatamente para o eixo que a A Voz dos Praças vinha expondo: Roosevelt Vilela e seu entorno político.

Depoimento de Rodney Freire, assessor de Roosevelt Vilela, confirma que os outdoors foram custeados por “vaquinha” de militares, com contratação, pagamento e prestação de contas feitos pelo Clube dos Oficiais do CBMDF.
Registros obtidos pela reportagem — depoimentos, mensagens e cobranças via PIX — demonstraram que a arrecadação informal, a intermediação por entidades associativas ligadas ao CBMDF e a contratação dos outdoors orbitam o gabinete de Roosevelt Vilela, valendo-se de um ambiente militar hierarquizado que retira o caráter de espontaneidade da contribuição, marcada por constrangimento, receio de retaliações e ausência de liberdade real de recusa.

Mensagem de Rodney Freire, bombeiro cedido ao gabinete de Roosevelt Vilela, mobilizando apoio político em grupo ligado ao meio militar — evidência da atuação do entorno do deputado na organização e difusão de ações em seu favor.
A atribuição da iniciativa a deputado distrital, portanto, não surge como elemento novo, mas como confirmação do roteiro já exposto.
Não tinha conhecimento da origem específica dos recursos, confiando na “lisura das doações
Bia Kicis supostamente não se exime; confirma.
A resposta evidencia plena ciência de que houve doações para financiar propaganda política que a favorecia — aceitação de financiamento político fora do sistema oficial, em período não permitido, para finalidade expressamente vedada (veiculação de imagem em outdoor).
Essa admissão já configura irregularidade, pois não existe doação lícita fora do sistema oficial de financiamento, ainda mais quando destinada a propaganda por outdoor, meio expressamente proibido pela Lei nº 9.504/97, independentemente do período eleitoral.
O quadro se agrava porque os recursos foram intermediados por pessoa jurídica, hipótese expressamente vedada pela legislação eleitoral, que proíbe o financiamento político por entidades privadas, associações ou clubes.
Ao afirmar que “confiou na lisura”, a parlamentar reconhece que aceitou o benefício sem verificar a origem, a forma de arrecadação ou a legalidade do meio utilizado, assumindo o risco de receber vantagem eleitoral ilícita, fora das formas legais e sem controle da Justiça Eleitoral.

Mensagem do coronel Moura, presidente do Clube dos Oficiais, convocando bombeiros a contribuir via PIX para custear outdoors em homenagem a autoridades.
A resposta, portanto, não afasta a irregularidade. Ao contrário, confirma a ciência da propaganda, o recebimento do benefício e a utilização de financiamento proibido por lei.
Michelle Bolsonaro permanece em silêncio
Procurada pela reportagem para se manifestar sobre a origem dos recursos utilizados na veiculação dos outdoors e sobre o uso de sua imagem nas peças publicitárias, Michelle Bolsonaro não respondeu aos questionamentos encaminhados por A Voz dos Praças até o momento da publicação desta matéria.
O espaço permanece aberto para eventual manifestação.

Quem cala consente e se torna condescendente?
Ao não se manifestar, a ex-primeira dama, Michele Bolsonaro, também assume o resultado dessa engrenagem: bombeiros constrangidos a custear propaganda política, sob risco funcional implícito, enquanto o benefício público recai sobre sua imagem.
“Enquanto os holofotes e os outdoors promovem projetos políticos, a conta é empurrada para os bombeiros, coagidos em ambiente hierarquizado a bancar propaganda alheia”, afirmou um militar que preferiu não se identificar, por temor do que chamou de efeito “Coronel Leite”.
O resultado não é abstrato. Trata-se da transferência direta do custo político para quem veste farda — tolerância com a exploração da tropa, convertida em caixa eletrônico eleitoral.




