A poucos passos da Câmara Legislativa do DF nasceu um verdadeiro cofre particular.
Em abril de 2025, Licérgio Oliveira, chefe de gabinete do deputado distrital Hermeto (MDB), abriu a Cumpas Holding Patrimonial LTDA com capital inicial de R$ 1,9 milhão. Em julho, a empresa já havia incorporado mais R$ 278 mil, por meio de uma Hilux SRX 2024.
Isso mesmo: a Cumpas — que no português informal ou no espanhol pode soar como “companheiro”, “camarada” ou “compadre” — foi registrada justamente pelo companheiro de confiança de Hermeto e estabelecida a apenas 700 metros de seu gabinete.

O endereço escolhido transforma a holding em uma extensão silenciosa do poder. Estar a poucos metros da Câmara Legislativa significa mais do que conveniência: significa acesso rápido, sigilo facilitado e a possibilidade de movimentar documentos e acordos sem sair da sombra do gabinete. Nessa distância curta, negócios privados e decisões públicas podem se cruzar em segundos — e é justamente essa proximidade que acende o alerta.
Se a evolução patrimonial de Licérgio não conversa com seu salário, a localização escolhida torna ainda mais plausível a suspeita de que a Cumpas não exista apenas para proteger seus bens. O nome que remete a “companheiro” pode ser, na prática, uma pista de que a holding abriga também o patrimônio de quem manda mais alto.
O risco é claro: quando uma estrutura empresarial se confunde com o espaço político, surge a possibilidade de que a holding funcione não só como blindagem patrimonial, mas como ferramenta de lavagem de influência. Ali, tão perto da CLDF, qualquer transação pode ser travestida de rotina administrativa. O que parece normal na contabilidade pode, na prática, ser parte de um mecanismo para resguardar valores, imóveis e veículos que jamais poderiam aparecer em nome do verdadeiro dono.

No fim, a Cumpas não é apenas uma holding milionária. É um símbolo da promiscuidade entre confiança pessoal e poder político, onde a linha entre patrimônio privado e estrutura pública se torna quase invisível.



