O escândalo envolvendo o ex-diretor da Papuda, Mayk Steve Richter Nobre, expõe uma tentativa de arquivamento que, na prática, ignorou o conteúdo das próprias provas reunidas no caso.

Em janeiro, o Ministério Público sustentou que havia “proximidade” e “informalidade” na relação entre o gestor e a policial penal, alegando que esse histórico geraria dúvida sobre a existência de constrangimento suficiente para caracterizar o crime.
“O histórico de amizade íntima, a informalidade recíproca, bem como a manutenção espontânea de vínculos sociais [...] introduzem dúvida razoável acerca da existência de efetiva coação”, afirmou a promotoria.
O problema é que os próprios autos apontavam que, mesmo com a vítima implorando para Mayk Steve parar, ele permaneceu nas investidas. Mensagens com conteúdo sexual, pedidos de fotos íntimas e o envio de imagem da própria genitália já constavam no material analisado, além do relato explícito de "excitação fisiológica" admitido pelo então diretor em depoimento.
"A blindagem do machismo estrutural tentou transformar assédio sexual em relação amigável para salvar a pele do ex-diretor", diz uma testemunha que preferiu não se identificar.
O absurdo só não avançou porque a vítima não se calou e recorreu da decisão. A Câmara de Revisão do MP teve que dar um choque de realidade na promotoria, classificando o entendimento inicial como "machismo estrutural" e uma visão totalmente equivocada da hierarquia.
“A alegação de vínculos sociais ou cordialidade recíproca não enseja dúvida razoável sobre o assédio sexual, tampouco sobre o assédio moral, ambos comprovados nos autos (…). O mais deprimente é que o machismo estrutural reina em todos os setores da sociedade, inclusive no Judiciário e no Ministério Público”, diz o texto.
Agora, o ex-diretor é réu e vai ter que explicar na Justiça por que usava o cargo para exigir fotos íntimas e perseguir quem teve a coragem de dizer não.









