A rotina das escoltas hospitalares no Distrito Federal transformou-se em um verdadeiro moedor de carne para o policial penal. Sem qualquer valorização salarial e submetidos a exigências incompatíveis com a realidade operacional, os servidores vêm sendo levados ao limite da exaustão física e mental, trabalhando em condições que afrontam a dignidade humana mais elementar.
Os plantões são de 24 horas. Nesse período, há relatos de policiais que permanecem até 20 horas consecutivas em pé por absoluta falta de cadeiras, salas de apoio ou qualquer estrutura mínima para descanso. Não existe local destinado ao revezamento da equipe, alimentação, troca de uniforme ou higiene pessoal. Em muitos casos, os servidores são obrigados a utilizar os mesmos banheiros destinados a presos e visitantes, situação que viola princípios básicos de segurança orgânica e expõe os policiais a riscos desnecessários.
A precariedade é tamanha que, para conseguir alguns minutos sentados, muitos policiais relatam ter de se deslocar até os estacionamentos dos hospitais e permanecer dentro de seus próprios veículos particulares. Além de improvisada, a prática expõe servidores fardados a riscos evidentes, já que essas áreas costumam registrar circulação constante de usuários de drogas, pessoas em situação de vulnerabilidade e indivíduos com antecedentes criminais.
Como se não bastassem as condições degradantes de trabalho, os policiais penais afirmam conviver com um ambiente de permanente pressão institucional. Nas escoltas hospitalares, o servidor encontra-se encurralado entre o dever do dever — que é garantir a custódia do preso e a segurança do local — e o dever de obedecer ao médico para não ser transferido. Na prática, palavra dos profissionais de saúde tem servido como fundamento para aplicação de medidas disciplinares pela gestão penal.
O episódio ocorrido na semana passada na UTI do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) ilustra o tamanho da distorção. Conforme relatos recebidos pelo A Voz dos Praças, três policiais permaneceram no local em estrito cumprimento ao Procedimento Operacional Padrão (POP). A equipe médica, entretanto, alegou que a presença dos servidores dificultava a circulação de macas e comprometia o fluxo de atendimento, encaminhando reclamação formal à Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAPE). Em vez de promover o alinhamento entre os protocolos da saúde e da segurança, a solução encontrada teria sido a transferência dos policiais envolvidos.
A situação evidencia uma armadilha institucional. Se os policiais cumprem integralmente o efetivo previsto nos protocolos, tornam-se alvo de reclamações por parte da unidade de saúde. Se reduzem a presença ou realizam revezamentos para minimizar os impactos operacionais, correm o risco de responder por abandono de posto ou descumprimento das normas de custódia. Em qualquer cenário, o servidor é colocado na condição de culpado.
A segurança pública não pode continuar sendo construída à custa da saúde física e mental de quem está na linha de frente. Exigir produtividade, vigilância permanente e cumprimento irrestrito de protocolos sem fornecer as condições mínimas não é gestão. É a institucionalização da precariedade. Quando o próprio Estado não consegue garantir ao seu servidor um local adequado para sentar, se alimentar ou utilizar um banheiro com segurança, perde a autoridade moral para exigir dele o impossível.









