Em janeiro de 2026, a Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC) carimbou quatro adolescentes de Florianópolis (SC) com os rótulos de “monstros” e “psicopatas” por ocasião da morte do “Cão Orelha”.

A narrativa fabricada foi tão violenta que a opinião pública — inflamada pelo sensacionalismo produzido por quem deveria garantir o devido processo legal — chegou a exigir o linchamento dos jovens.

Autoridades públicas correram para os microfones para inflamar a turba com discursos sobre “provas de embrulhar o estômago”.

Governador diz que provas contra suspeitos de agredir cão Orelha "embrulham o estômago"
Chegaram a inventar que, além de Orelha, o grupo teria tentado afogar outro cão comunitário no mar, o Caramelo.

O próprio Estado criou um Tribunal do algoritmo e apressou-se em entregar cabeças.
O silêncio da razão durou até maio, quando enfim o Ministério Público (MPSC) manifestou-se pelo arquivamento do caso, revelando que o cão morreu de causas naturais (osteomielite crônica) e que os jovens estavam a 600 metros de distância do local.
Mas, àquela altura, o estrago já estava consumado. O exibicionismo de uma autoridade policial teve tempo suficiente para causar irreparável destruição. Sob o pretexto de investigar, a polícia promoveu um massacre reputacional de quatro meses, expondo fotos, endereços e a intimidade de menores protegidos por lei.
A sanha acusatória não poupou ninguém: resultou em mandados de busca invasivos e no indiciamento descabido de três familiares por coação. Quando o palanque policial finalmente se esvaziou, o saldo já não era jurídico, mas de sangue — com o infarto fatal de um tio inocente que sucumbiu à pressão psicológica da barbárie institucional.
O “Caso Orelha” não parece ter sido um simples erro, mas o resultado da espetacularização da investigação policial para capitalização política.

Ex-delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina Ulisses Gabriel
À época delegado-geral da PCSC, Ulisses Gabriel, avocou para si o caso, promoveu a devassa irresponsável na vida dos adolescentes e seus familiares e, em 21 de fevereiro — menos de um mês após o início do massacre —, anunciou sua saída do cargo na corporação para lançar sua pré-candidatura a deputado estadual pelo PL.

A troca da perícia técnica pelo palanque midiático funcionou como um eficiente cabo eleitoral, pavimentado sobre a destruição de inocentes.

A adoção do outro cão, o Caramelo, pelo ex-delegado-geral parece ter sido usada como elemento cênico para construir uma narrativa maniqueísta de “heróis contra vilões”.
Se há uma lição a ser extraída dessa tragédia, é que nenhuma causa, por mais nobre que seja, autoriza o atropelo das garantias fundamentais. A proteção dos animais é um dever do Estado, mas deve ser exercida sem busca por promoção pessoal.
O “Caso Orelha“ expõe os perigos de uma polícia que troca a discrição investigativa pelos holofotes, transforma suspeitas em certezas públicas e converte inquéritos em plataformas de autopromoção. Quando autoridades passam a disputar manchetes, seguidores e capital político, o risco é que a busca pela verdade deixe de ser o objetivo principal da investigação.
Os adolescentes seguirão carregando as cicatrizes da exposição. Uma família seguirá convivendo com a perda de um ente querido. E aqueles que transformaram a investigação em espetáculo provavelmente seguirão suas carreiras sem responder por nada.

Porque, no Brasil, quando o Estado erra, a punição quase nunca alcança quem apontou o dedo. Ela recai sobre quem foi apontado.









