Novacap fecha contrato de R$ 49 milhões com cooperativa, empenha apenas R$ 1 mil (um mil reais) e deixa caminhoneiros paralisados sem combustível.
Operação Coringa expõe suspeitas e deixa rastro no asfalto
Em 12 de junho de 2025, o Ministério Público de Contas do Distrito Federal, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrou a Operação Coringa para apurar suspeitas de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e formação de cartel em contratos da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap).

O que, nos autos, tratava de aceleração de pagamentos e cobrança de propina sobre valores de contratos, do lado de fora virou um problema que hoje se traduz em caminhões parados, famílias endividadas e trabalhadores à beira de uma nova paralisação.
Desde então, caminhoneiros terceirizados que prestam serviços à Novacap afirmam amargar atrasos sucessivos nos repasses feitos às cooperativas contratadas pelo Governo do Distrito Federal (GDF).
O drama diário de quem depende do volante para sobreviver
O efeito da crise não se resume a números em planilhas. Nas casas dos caminhoneiros, os atrasos se transformam em noites em claro, ligações de cobrança e geladeiras vazias.
“Os meses passam, o pagamento não chega e as dívidas deixam de ser números — viram noites sem dormir, ligações de cobrança, geladeira vazia e contas acumuladas sobre a mesa”, relata um trabalhador ouvido pela reportagem, que pediu para não ser identificado por medo de retaliações.
Sem dinheiro para abastecer, muitos profissionais foram simplesmente obrigados a estacionar os caminhões, não por escolha, mas por absoluta falta de condições de continuar rodando.

Em casa, as famílias tentam se virar com empréstimos, compras fiadas no mercado, ajuda de parentes e vizinhos.
“Os valores referentes aos trabalhos prestados em agosto e setembro de 2025 só foram pagos em janeiro de 2026 — quatro meses depois de executado o serviço. Já os meses de outubro, novembro, dezembro de 2025 e janeiro de 2026 seguem em aberto, sem qualquer previsão concreta de regularização”, afirma o caminhoneiro.
Segundo ele, a situação de atrasos se arrasta pelo menos desde junho de 2025.
Serviço feito, pagamento atrasado
De acordo com os relatos, o quadro é o seguinte: o GDF, por meio da Novacap, mantém contratos com cooperativas de transporte para execução de serviços de patrulha mecanizada, transporte de funcionários e apoio operacional em obras públicas.
Os caminhoneiros são cooperados, recebem por quilômetro rodado ou por diária, e dependem desses repasses para honrar prestações dos próprios veículos, seguros e despesas básicas da família.
Mas, na prática, o dinheiro não tem chegado na mesma velocidade com que as equipes são acionadas para atender às demandas da companhia.
“O serviço foi cumprido. A obrigação de pagar, não”, resume outro prestador de serviço.
Muitos relatam já ter vendido bens pessoais, atrasado o pagamento de financiamentos e, em alguns casos, visto o nome ir parar em cadastros de inadimplência.
Há relatos de caminhoneiros que não conseguem mais abastecer o veículo para sair de casa, o que na prática os impede de trabalhar e agrava ainda mais o ciclo de endividamento.
Reuniões, política e medo de retaliação
Na tentativa de resolver o impasse,durante esta semana motoristas ligados à Coopercam participaram de reuniões na sede da Novacap.
Uma delas, segundo os relatos, ocorreu em 24 de fevereiro de 2026. Nela, teriam participado representantes da cooperativa, entre eles o presidente Edimar Rosa Souza, conhecido como Mineiro, e o ex-deputado distrital Valdelino Barcelos.
Segundo ele, a mensagem passada aos trabalhadores é de que a solução depende de decisões políticas.
“Duvido muito que a presidência da COOPERCAM na figura do Sr. Edimar Rosa Souza (Mineiro) lhe confirme essa informação, que nos fora dada por ele e pelo ex-distrital Valdelino Barcelos ontem (24/02/2026) pela manhã”, diz um dos caminhoneiros.
Os caminhoneiros também citam a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão, lembrando que ela e Valdelino são filiados ao mesmo partido, o Progressistas (PP).

Para os trabalhadores, é mais um indicativo de que a disputa, que começou no campo policial, hoje tem reflexos diretos na rotina de quem apenas presta serviço.

Print de conversa em grupo de WhatsApp em que caminhoneiros foram convocados para uma reunião no pátio da Novacap nesta semana.
Cooperativas paradas e risco de colapso no transporte
A situação não atinge apenas a Coopercam. De acordo com os caminhoneiros, outras terceirizadas da Novacap também enfrentam atrasos nos repasses.
“E esse problema todo que te relatei não é exclusivo da COOPRCAM, a COOPERTRAN e a RODOESTE e outros terceirizadas da NOVACAP também estão com pendências financeira a receber!”, afirma um dos relatos.
Segundo ele, duas dessas cooperativas — Coopertran e Rodoeste — já teriam cruzado os braços desde 23 de fevereiro, paralisando vans responsáveis pelo transporte de pessoal para as demandas administrativas da Novacap.
Na prática, a paralisação dessas linhas internas afeta diretamente o deslocamento de equipes técnicas, fiscais e trabalhadores até frentes de serviço, o que pode comprometer obras e manutenção em diversas regiões do Distrito Federal.
Ultimato: ou paga até hoje, ou caminhões param na segunda
Diante da falta de respostas concretas, caminhoneiros relatam que uma nova reunião foi realizada em 25 de fevereiro de 2026, também na Novacap. Na ocasião, teriam ouvido que “o GDF/Novacap está sem dinheiro” e que não havia previsão exata para quitação dos débitos em aberto.
A insatisfação levou o grupo a estabelecer um prazo final.
“Foi deliberado que se não nos pagarem até sexta feira 27/02, na segunda feira 02/03 pararemos a operação!”, diz um dos motoristas.
A ameaça de paralisação total da patrulha mecanizada acende um alerta sobre os serviços prestados pela companhia, como tapa-buracos, manutenção de vias não pavimentadas, apoio a obras de infraestrutura e atendimento a emergências em períodos de chuva.
Sem caminhões basculantes, caçambas e equipamentos pesados rodando, parte dessas ações tende a ser impactada.
Nomes investigados por corrupção seguem no comando das Coopercam
Outra coisa que chama atenção é que mesmo após uma sequência de denúncias e investigações sobre contratos de transporte no DF, Edimar Rosa de Souza, o “Mineiro”, e o ex-deputado distrital Valdelino Barcelos continuam no comando da Coopercam.

Embora não conste formalmente do quadro social da cooperativa, o ex-deputado distrital Valdelino Barcelos segue, segundo relatos, no controle das principais decisões da entidade.
Citados em apurações passadas por ocultar a verdadeira propriedade de empresas e maquiar valores faturados em esquemas de estelionato contra a administração pública e corrupção de agentes públicos, são os mesmos que hoje dirigem a cooperativa acusada de não repassar aos cooperados o dinheiro referente ao trabalho já realizado.

Diante desse cenário, em que caminhoneiros acumulam meses sem receber e apontam justamente a dupla no comando da Coopercam como responsável por não repassar o que foi trabalhado, a dúvida que fica é: até quando nomes investigados por corrupção vão seguir mandando, enquanto quem trabalha segue sem ver o pagamento?
Contrato milionário, empenho simbólico e caminhoneiro sem receber
Em janeiro de 2026, a Novacap assinou o quinto termo aditivo do Contrato D.A. nº 008/2023 com a Coopercam, prorrogando por mais 12 meses um acordo de quase R$ 49,5 milhões e mantendo o valor global em R$ 49.489.833,04.
No mesmo documento, porém, a “disponibilização orçamentária” registrada é a NE00272, de 28 de janeiro de 2026, no valor de R$ 1.000,00 (um mil reais) — um empenho inicial simbólico diante do tamanho do contrato, assinado eletronicamente no fim do mês.

Diante desse cenário, em que caminhoneiros acumulam meses sem receber pelo trabalho já realizado e veem no Diário Oficial um contrato milionário renovado lastreado em um empenho de apenas R$ 1 mil – valor ínfimo, que não paga sequer uma fração do serviço prestado – a pergunta que fica é simples: como o GDF justifica assumir um compromisso dessa magnitude no papel sem garantir recursos mínimos para quem está na ponta?
O papel está assinado; quem não está vendo cor do dinheiro é quem trabalha.
Entre promessas e paralisação
Enquanto as respostas não vêm, os caminhoneiros seguem na encruzilhada: ou acreditam em novas promessas, ou cruzam os braços de vez — com todos os impactos que isso pode trazer para a rotina de milhares de moradores do Distrito Federal que dependem dos serviços executados por eles.









