Leonardo Siqueira dos Santos, responsável por fiscalizar o uso de viaturas, acumulou infrações, cruzou a fronteira do DF todos os dias e nunca pagou as multas.
Entre 8 de março de 2023 e 5 de março de 2025, o coronel Leonardo Siqueira dos Santos ocupou o cargo de corregedor-geral da Polícia Militar do Distrito Federal — função em que se gabava de ser “arrojador”, implacável na aplicação de punições e na cobrança de disciplina da tropa.
No papel, tinha a missão de zelar pelo cumprimento de normas internas — incluindo a Portaria PMDF nº 752/2011, que regula o uso das viaturas. Na prática, fez exatamente o oposto: transformou a viatura oficial em carro de uso pessoal, utilizando-a diariamente para deslocamentos particulares e, nesse período, acumulando mais de R$ 2.700,00 em multas de trânsito. Tudo isso enquanto ignorava, de forma escancarada, as mesmas regras que impunha com rigor aos outros.

Com a lei na mão para punir os outros e a chave da viatura para ignorar as próprias regras – o mundo encantado de Queixada à frente da Corregedoria da PMDF.
A viatura SGP-9D31, um Corolla Altis HV avaliado em cerca de R$ 192 mil, classificada como tipo R (Representação), esteve sob uso de Siqueira por, no mínimo, de 14/04/2023 a 21/11/2023.

Durante esse período, ele não se limitou a usar para fins institucionais: a viatura foi utilizada diariamente para ir e voltar de sua residência na Ponte Alta, o que contraria diretamente o que estabelece o art. 7º da Portaria.
As normas que valem para todos nunca valeram para Siqueira — pelo menos na cabeça dele — e o uso da viatura é a prova: deslocamentos diários para casa, sem missão oficial ou autorização, 62 pontos na CNH — o bastante para duas suspensões — e nenhuma multa paga até hoje, numa demonstração cristalina de que se colocava acima das mesmas regras que impunha com rigor aos outros.

O histórico de infrações dispensa interpretação. Na madrugada de 18 de agosto de 2023, a viatura sob sua cautela foi multada cinco vezes por excesso de velocidade, em menos de duas horas, cruzando diferentes pontos do DF.

Somam-se a isso autuações por uso de faixa exclusiva e outros excessos cometidos entre abril e novembro daquele ano. Nenhuma foi paga e nenhuma medida administrativa foi aplicada — tratamento que qualquer outro militar jamais receberia.
Sem missão oficial registrada, fica a pergunta: o que fazia o então corregedor-geral rodando de madrugada com a viatura do Estado?
Entre o silêncio institucional e a vista grossa, o caso escancara a contradição: enquanto praças e oficiais de menor patente são punidos com rigor por infrações muito menores, o então corregedor — encarregado de fiscalizar e punir abusos — rodava impune, acumulando multas, pontos e violando normas explícitas.

A ausência de qualquer medida contra Siqueira não é só corporativismo: é um recado à tropa. A lei não vale para todos. Para alguns, é instrumento de controle; para outros, um obstáculo que se dribla com a patente.

Se fosse um praça, já teria desconto em folha, sindicância e ameaça de processo. Mas, para o corregedor-geral, a regra é simples: silêncio e impunidade.
Há ainda relatos — atualmente em apuração — de que, pela distância percorrida diariamente, a viatura extrapolava o limite de abastecimento permitido, levando Siqueira a usar três cartões diferentes para garantir combustível. Cada cartão estaria vinculado a uma viatura distinta, num esquema que, se confirmado, acrescenta mais um capítulo ao uso irregular do patrimônio público.









