Candidatas aprovadas no concurso do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) denunciam que passaram a sofrer ameaças, intimidações e constrangimentos por parte de oficiais da corporação após questionarem regras do Teste de Aptidão Física (TAF) feminino.
No centro da denúncia estão declarações do major Otávio Quintiliano e do coronel Alisson Barros.
Em vídeo, em tom de deboche e pressão, Quintiliano chama aprovadas no concurso da corporação e integrantes de tribunais de “medíocres”.
Já Barros, em postagens no Instagram, afirma que quem contestar o concurso poderá sofrer consequências na etapa de investigação social e ainda sugere que as inconformadas procurem vagas em concursos de tribunais.

Coronel Alisson Barros, do CBMDF, publicou mensagens em tom de deboche e ameaça velada contra candidatas que questionam o TAF feminino no concurso da corporação.
Para as aprovadas, a reação de oficiais e de perfis ligados ao meio militar transformou o debate técnico sobre o TAF em um ambiente de constrangimento público contra mulheres que pedem isonomia e proporcionalidade nas exigências do edital.
“Temos receio de buscar amparo administrativo ou judicial para discutir o edital e sofrer retaliações informais em etapas futuras, como sugeriu o coronel Alisson Barros ao mencionar a investigação social”, disse uma aprovada que, por medo, preferiu não se identificar.
As candidatas afirmam que não são contra a cobrança por preparo físico, mas sustentam que o TAF feminino do DF está acima do padrão adotado em outros concursos de bombeiros no país, enquanto o masculino segue parâmetros mais próximos dos demais estados.
Um comparativo reunido pelo grupo reforça a tese de desproporcionalidade, especialmente em provas como barra e natação.

Tabela compara índices de barra, corrida e natação exigidos de homens e mulheres em concursos de bombeiros pelo país e é usada por candidatas para sustentar que o TAF feminino do DF está acima do padrão nacional.
Nem mesmo a recomendação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) para revisão dos índices do TAF do concurso do CBMDF foi suficiente para conter a escalada de hostilidade de membros da corporação contra candidatas que questionam as regras do exame.

Recomendação do MPDFT aponta possível discriminação de gênero no TAF feminino do concurso do CBMDF e pede revisão do edital.
Agora, a pressão recai sobre o CBMDF. Além de responder sobre os critérios do teste físico, a corporação também terá de lidar com a repercussão de falas e postagens indecorosas de oficiais da própria instituição.
Para essas mulheres, o que está em jogo vai além do direito de disputar uma vaga pública sem sofrer intimidação por questionar regras que consideram injustas: trata-se de um projeto de vida. A aprovação no concurso do CBMDF representa, para muitas, a chance de estabilidade financeira, realização profissional e contribuição direta com a sociedade.
Quando o medo de retaliação passa a fazer parte da rotina, esse sonho fica sob ameaça não apenas pelas dificuldades inerentes ao TAF, mas pelo risco de uma eliminação que teria mais relação com a postura crítica do que com a real capacidade de atuação.
“O caso deixou de ser apenas uma discussão técnica sobre o exame físico. O que está em jogo agora é o direito de questionar critérios do edital sem sofrer exposição, deboche ou medo de represália dentro do concurso”, afirmou um integrante da corporação.
O CBMDF e os órgãos de controle precisam assegurar um ambiente em que reclamar de injustiças não seja sinônimo de “colocar a cabeça a prêmio”. Em um concurso público o respeito à lei e à igualdade deve valer tanto para quem é avaliado quanto para quem avalia.



