O que deveria funcionar como uma unidade de custódia militar parece ter sido transformado em uma espécie de “clube privado” para acomodar a ex-cúpula da PMDF condenada por omissão nos atos de 8 de janeiro.
Uma decisão tomada dentro do 19º Batalhão da Polícia Militar (NCPM), conhecido como “Papudinha”, passou a levantar questionamentos sobre o verdadeiro motivo da retirada de bombeiros militares custodiados na unidade.
Para pedir a remoção dos militares ao juízo da Vara de Execuções Penais do DF (VEP), o comandante do batalhão, tenente-coronel Allenson Nascimento Lopes, alegou que a unidade estaria “passando por obras estruturais e readequações físicas que impactariam significativamente sua capacidade operacional” — pedido que foi autorizado em 19 de novembro de 2025, no âmbito do processo nº 0412741-19.2025.8.07.0015.



A justificativa, porém, entra em choque com a própria versão oficial da PMDF. Sete dias antes da autorização judicial, em 12 de novembro de 2025, a corporação informou ao portal Metrópoles que “as obras em andamento no 19º Batalhão não teriam qualquer relação com as celas ou com o espaço destinado a custodiados”.

Reportagem de Isadora Teixeira, do Metrópoles , publicada em 12/11/2025.
Nos bastidores, a percepção é de que a retirada dos bombeiros teve uma finalidade muito mais sensível: liberar espaço para receber, em ambiente mais reservado e confortável, os cinco coronéis da PMDF condenados pelo STF em dezembro de 2025 por envolvimento nos atos golpistas.
Enquanto bombeiros militares da ativa eram transferidos para o Bloco 5 do CIR — chegando a dividir espaço com presos de alta periculosidade, como Élcio Queiroz, condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, e Joenil Queiroz, sargento da Marinha condenado por matar a esposa e um amigo no Cruzeiro —, a “Papudinha” preparava-se para receber oficiais que, pela perda do vínculo com a corporação, deveriam ser submetidos ao sistema prisional comum.
O episódio expõe um sistema onde o conforto de quem ostenta estrelas no ombro parece valer mais do que a dignidade da tropa e a transparência na gestão pública. Ao utilizar uma reforma que, segundo a própria PMDF, não afetava a área de custódia para justificar a retirada de praças e abrir espaço a oficiais expulsos, o comando do 19º BPM não apenas colocou em xeque a ética militar, mas reforçou a percepção de que, na segurança pública do DF, a lei pesa de forma diferente dependendo da patente.
TJDFT já decidiu
A própria Justiça do Distrito Federal já consolidou entendimento no sentido de que militares expulsos da corporação não possuem direito ao cumprimento de pena em unidade prisional militar, uma vez que as prerrogativas e garantias previstas na Lei nº 14.751/2023 alcançam exclusivamente militares da ativa, da reserva remunerada e reformados.
O entendimento foi firmado pelo TJDFT no julgamento do processo nº 0734315-07.2024.8.07.0000.
O outro lado
Até o fechamento desta edição, a PMDF não se manifestou sobre os questionamentos encaminhados pela reportagem acerca da retirada dos bombeiros militares custodiados no NCPM. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos oficiais.









