O Hospital de Base, principal unidade de alta complexidade da rede pública do DF, entrou em “porta vermelha” — com restrição à admissão de novos pacientes em áreas críticas da urgência, como traumatologia, neurologia e atendimento a AVC — em razão da indisponibilidade de tomógrafos.

A unidade, que dispõe de três tomógrafos, opera com todo o parque de imagem comprometido: um dos equipamentos está inoperante desde setembro de 2025, enquanto os outros dois apresentaram falha na semana passada.
Em razão disso, os pacientes em estado de emergência que ainda são admitidos pela unidade precisam ser transportados — acompanhados por toda a equipe médica — ao Hospital Regional da Asa Norte (HRAN) para a realização da tomografia, retornando em seguida ao Hospital de Base.
O fluxo retarda a definição da conduta médica, amplia a sobrecarga sobre equipes já pressionadas pela demanda da urgência e emergência, além de ter potencial para resultar em danos irreversíveis em pacientes críticos.
No Hospital do Paranoá, a situação é semelhante, mas ainda mais grave. A indisponibilidade de tomógrafos obriga o transporte de pacientes para o Hospital de Sobradinho e, em alguns casos, até para o Hospital do Gama, localizado a 53,8 quilômetros da unidade.

A indisponibilidade de tomografia no momento da admissão impõe atraso justamente nos casos em que o tempo define o desfecho clínico. No chamado “tempo de ouro”, cada minuto perdido reduz as chances de sucesso no atendimento.
No caso do AVC, por exemplo, a janela terapêutica para intervenção eficaz pode ser de até 4 horas, dependendo da avaliação neurológica e do tipo de ocorrência. Sem a tomografia imediata, não é possível diferenciar um AVC isquêmico de um hemorrágico — etapa essencial para definir a conduta. O atraso, nesse cenário, não é apenas operacional: é o que separa a possibilidade de recuperação de sequelas permanentes ou morte.
Profissionais do Hospital de Base, do Samu e do CBMDF descrevem uma rotina de angústia, marcada pela sensação de impotência ao ver pacientes graves sem acesso imediato ao exame de que dependem para continuar vivos.
“Não foi para assistir, de mãos atadas, à deterioração de pacientes que escolhemos essa profissão”, relatou um médico, que preferiu não se identificar. Um enfermeiro afirmou à reportagem que “ver alguém perder a vida por falta de estrutura necessária para agir impõe a nós um nível de sofrimento que vai além do desgaste profissional”.
O problema deixa de ser restrito ao funcionamento interno dos hospitais de Base e do Paranoá e passa a comprometer a lógica de toda a rede pública. A transferência forçada de pacientes críticos sobrecarrega unidades como o HRAN, Sobradinho e Gama, que passam a absorver uma demanda que não era originalmente sua — e atrasam o atendimento de quem já aguarda nessas casas de saúde.

Na prática, o que se instala não é apenas sobrecarga — é um sistema que passa a operar sem o instrumento básico para definir quem vive, quem agrava e quem pode não resistir ao tempo que se perdeu.




