Denúncias sobre a caixa-preta da saúde da PMDF provocam reação em cadeia: um coronel se aposenta às pressas, outro aparece para atacar quem ousa pedir transparência.
1. A denúncia que escancarou o esquema — superfaturamento, corrupção e desconto silencioso no contracheque
No dia 7 de abril de 2025, trouxemos a público uma denúncia que destravou um sistema inteiro de silêncio, conivência e desvio dentro da estrutura de saúde da Polícia Militar do Distrito Federal. A fatura detalhada de um atendimento médico de menos de 15 dias no Hospital Santa Marta — conveniado à PMDF — revelou valores escandalosos, superfaturados e lançados sem controle sobre o contracheque do militar titular.
O valor total cobrado: R$ 132.742,30.
Desse montante:
- R$ 79 mil foram pagos com verbas públicas do Fundo de Saúde da PMDF;
- R$ 52 mil foram descontados diretamente do salário do militar, sem qualquer transparência sobre os valores cobrados ou acesso à fatura pelo titular.
O militar só conseguiu acessar a fatura porque obteve o documento de forma direta — não por transparência da corporação, mas pela própria insistência. Quando os dados vieram à tona, ficou exposto um esquema de valores inflados, abuso contratual e ausência total de fiscalização.

Alguns exemplos reais da fatura:
- R$ 2.210,00 por duas dietas de R$ 71,70 cada;
- R$ 4.575,00 por 122 tiras de glicose que custam R$ 1,00 a unidade;
- R$ 19.607,29 por 17 equipos avaliados em média a R$ 71,54;
- R$ 14.034,00 por 44 doses de Meronem, cujo preço unitário é de R$ 24,35;
- R$ 1.216,00 por 8 ampolas de Pantozol (R$ 6,76 cada);
- R$ 4.501,09 por 11 comprimidos de Zyvox, com dosagem e uso inflacionados;
- R$ 3.480,00 por 3 transdutores, cobrados sem referência pública de preço;
- R$ 1.757,28 por 112 Dormomid, com uso possivelmente injustificado.
Esses itens somam R$ 51.380,66 — ou seja, 39% do valor total da fatura.
O valor só aparece após o desconto em contracheque — e mesmo depois disso, o militar não tem acesso claro ao que está pagando.
A denúncia foi feita com base em documentos oficiais obtidos e analisados por nossa equipe. Tudo que a PMDF tentou esconder — nós revelamos.
2. O vídeo de Ramalho e a confissão disfarçada
No mesmo dia em que a denúncia foi publicada, o então chefe do Departamento de Saúde da PMDF, coronel Ramalho, gravou um vídeo institucional na tentativa de controlar os danos. Sem citar diretamente o caso, ele afirmou que os contratos antigos funcionavam sob o modelo de “contas abertas” — em que hospitais e clínicas enviavam as cobranças livremente — e que, a partir de 2025, a PMDF teria migrado para um sistema de pacotes fechados.
A principal promessa veio em seguida: segundo Ramalho, o novo modelo permitiria uma redução de 25% nos gastos da saúde. Mas a fala, feita para parecer solução, soou como confissão indireta de corrupção: só se corta um quarto do orçamento quando já se está desviando ou superfaturando dinheiro público.
No discurso, Ramalho ainda tentou reforçar a ideia de controle, mencionando auditorias do Tribunal de Contas e acesso via Lei de Acesso à Informação. Na prática, porém, o que se via era o oposto: militares sem acesso às próprias faturas, sem saber o que estão pagando, e arcando com valores inflados sob o silêncio da instituição.
3. O “milagre” das guias
No dia seguinte ao vídeo de Ramalho, a PMDF liberou, de uma só vez, mais de mil guias médicas para atendimentos da tropa. O que antes era negado, travado ou “sem previsão”, apareceu como num passe de mágica — sem mudança de orçamento, sem novo contrato, sem justificativa.
A ação foi vista internamente como uma tática de contenção de danos, tentando acalmar os ânimos após a denúncia de superfaturamento e o constrangimento público da corporação.
Mas o alívio durou pouco: cerca de um mês depois, tudo voltou ao caos de sempre. Faltam autorizações, há fila para marcação, e o acesso à saúde continua precário — exceto para os hospitais que seguem lucrando.
4. A verdade continua oculta
Apesar do barulho, nada mudou na ponta da linha. O policial militar continua sendo descontado — sem nunca ver a fatura detalhada, sem saber o que está pagando, sem ter onde contestar.
O sistema segue operando no escuro: não há recibo, não há valor por procedimento, não há acesso online, e, muitas vezes, nem resposta por SEI.
Quem quer entender os descontos é tratado como inimigo. Um regime perfeito para manter um esquema vivo: dinheiro público e salário de servidor irrigando contratos privados sem qualquer fiscalização real.
5. A filiação que estremeceu o comando
No dia 5 de julho, Cabo Vitório e Coronel Leite se filiaram ao PSB — e não foi à toa. Ao lado de Ricardo Cappelli, ex-interventor federal e figura temida entre oficiais criminosos da PMDF, o recado foi direto: vem aí enfrentamento com nome, partido e estrutura.

Entre os termos da filiação, um acordo central: o PSB garantiria retaguarda política e jurídica para escancarar o esquema da saúde que a corporação tenta varrer para debaixo do tapete.
A resposta foi imediata. A cúpula da PMDF entrou em alerta, e os movimentos seguintes não deixaram dúvidas: o sistema sentiu o golpe.
6. A fuga de Ramalho
Três dias após a filiação de Cabo Vitório ao PSB, no dia 8 de julho, o coronel Ramalho pediu aposentadoria repentina. Coincidência? Nenhuma.

Saiu antes da bomba explodir por completo, como quem sente o cheiro de pólvora no ar e corre para não estar fardado quando a verdade vier à tona.
7. Cappelli entra em cena e endossa as denúncias
No dia 11 de julho, Ricardo Cappelli publicou um vídeo que mudou o jogo. Não foi apoio genérico — foi endosso direto às denúncias que já vinham sendo feitas por nós:
- Escancarou a caixa-preta da saúde da PMDF.
- Revelou que policiais e bombeiros perdem até um salário por ano sem saber o que estão pagando.
- Denunciou que quem exige transparência é perseguido dentro da própria corporação.
- E foi além: anunciou que entrará com ações no Ministério Público e na Justiça para abrir a contabilidade oculta do sistema.
Foi o primeiro movimento político-institucional de peso a romper o silêncio — e o topo da PMDF tremeu.
8. O chilique do coronel Leonardo Moraes
No dia de hoje (12 de julho), o presidente da ASOF (Associação dos Oficiais), coronel Leonardo Moraes, gravou um vídeo visivelmente incomodado. Atacou Ricardo Cappelli, chamou-o de “mau caráter”, tentou rebaixá-lo a um simples “candidato” e correu para blindar o sistema de saúde da PMDF.
Disse que Cappelli "perseguiu oficiais" durante a intervenção federal de 2023, e que depôs em inquéritos para prejudicar os policiais. Coronel Leonardo falta com a verdade.
A bem da verdade, Cappelli depôs duas vezes à Polícia Federal, e em nenhum momento relatou qualquer tipo de perseguição institucional aos oficiais. No livro "8 de janeiro que o Brasil não viu", Cappelli cita apenas o coronel Naime como figura que, enquanto diretor de operações, afrontou a autoridade do interventor. Nas páginas 91 e 118, deixa claro que nenhum outro oficial da tropa teve a mesma postura de resistência ou desacato.
Ou seja: Leonardo mentiu.
Cappelli tem, na verdade, defendido os praças que resistiram aos atos golpistas do 8 de janeiro. Os que protegeram a democracia, colocaram seus corpos na linha de frente e até hoje não foram reconhecidos nem promovidos por bravura. Esses são os verdadeiros perseguidos.
Falar em perseguição? Logo Leonardo? Ele não apenas conhece o sistema — ele é o sistema. Um sistema que nasceu perseguindo praças, que se alimenta da covardia dos que mandam calar, e que sobrevive silenciando qualquer um que ouse desafiar seus privilégios. Leonardo Moraes não está indignado por justiça — está em pânico porque o castelo de conivências onde sempre viveu está começando a ruir
No vídeo, Leonardo ainda tenta sustentar a mentira de que basta pedir via SEI para acessar faturas detalhadas — o que já foi desmentido com provas. Promete um aplicativo que nunca veio, como se isso resolvesse os desvios que a tropa sofre há anos.
Cappelli está fazendo exatamente o que sempre foi combatido por eles: abrindo a caixa-preta da saúde da PMDF — um sistema historicamente montado para proteger estrelas, esconder contratos e punir quem ousasse perguntar. Pela primeira vez, quem sempre ficou do lado de fora começa a enxergar o que se passa por trás das cortinas.
E é por isso que a cúpula treme. Porque privilégio não sobrevive à luz.
A verdade é simples: oficiais criminosos têm motivo para temer Cappelli. Os honestos, ao contrário, deveriam estar com ele.
9. Quem é Leonardo Moraes? Ou Leozinho da Improbidade?
Leonardo Moraes tenta se vender como defensor da tropa, mas os autos dizem outra coisa. Em 2013, foi condenado por improbidade administrativa enquanto chefiava a administração de Ceilândia. A Justiça reconheceu sua participação em um esquema de contratação ilegal, sem licitação, que drenou recursos públicos.

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/07/24/interna_cidadesdf,378787/ex-administrador-de-ceilandia-e-condenado-por-improbidade-administrativa.shtml
Anos antes, em 2010, já acumulava críticas de parlamentares por sua postura autoritária e desastrosa na negociação salarial dos militares. Durante uma reunião sobre reajustes, como chefe da Casa Militar, impediu a participação de representantes da categoria e foi acusado de desrespeitar os policiais. Na tribuna, foi chamado de “trapalhão” pelo deputado Milton Barbosa (PSDB), e o episódio ficou marcado como mais um capítulo de exclusão e arbitrariedade.

https://www.cl.df.gov.br/-/cabo-patricio-critica-negociacoes-de-reajustes-de-policiais-e-bombeiros
Mais recentemente, em 2023, Leonardo Moraes apareceu em um vídeo da ASOF — Associação dos Oficiais da PMDF pedindo doações via Pix para oficiais presos por decisão do Supremo Tribunal Federal, após os ataques de 8 de janeiro. Ao seu lado, estava a major Cristiane Caldeira, da Corregedoria, fardada. A gravação usou estrutura da PMDF para fins pessoais, o que viola frontalmente as normas institucionais.

https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2023/10/10/video-coronel-e-major-da-pmdf-pedem-dinheiro-para-ajudar-familias-de-militares-presos-por-atos-do-dia-8-de-janeiro.ghtml
A própria corporação reconheceu a irregularidade — mas ninguém foi punido. Nenhuma sindicância, nenhum IPM, nenhum afastamento. O motivo? Oficiais estavam envolvidos. Se fosse praça, já estaria expulso, preso e calado.
Leonardo não é vítima de perseguição. É expressão do sistema que há décadas persegue, silencia e sufoca as vozes das praças. Um sistema que só funciona para os de estrela no ombro — e que treme quando a verdade vem à tona.
10. Jorge Naime e o sistema que Leonardo tenta proteger
Um dos oficiais que Leonardo Moraes tenta pintar como vítima de “perseguição” é o coronel Jorge Eduardo Naime Barreto, ex-diretor de Operações da PMDF, ex-presidente da ASOF e réu por envolvimento direto nos ataques golpistas de 8 de janeiro.

Mas o que Leonardo não contou é que Naime virou peça central em um dos maiores escândalos da PMDF: é investigado por lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos e movimentação suspeita de R$ 1 milhão em espécie, levado de São Paulo a Brasília sob escolta da própria PMDF.

Segundo a Procuradoria-Geral da República, Naime usava a ASOF para fechar contratos com empresas ligadas ao empresário Sérgio Barbosa de Assis, que devolvia a maior parte do valor diretamente ao coronel. Do total pago pela associação, R$ 8 mil voltavam todo mês para Naime, enquanto apenas R$ 900 ficavam com o “prestador”. Chama-se isso: contrato simulado para lavar dinheiro.
A conexão fica ainda mais escandalosa: a esposa de Naime, Mariana Fiuza Taveira Adorno, era sócia de Sérgio em três empresas de fachada com sede em Vicente Pires. O filho da irmã de Sérgio também fazia transferências para a conta de Naime.

https://pdf.ac/58Kmuv
É uma teia familiar para lavar recursos, segundo a própria CPMI, com relações que vão do alto comando da PMDF até os bastidores do PTB, partido envolvido na Operação Registro Espúrio e no escândalo da Covaxin.
O inquérito policial que apura os crimes de estelionato e lavagem de dinheiro envolvendo Jorge Eduardo Naime, Mariana Naime e Sérgio Assis tramita sob sigilo no TJDFT.
Mesmo diante desse histórico, Leonardo Moraes não apenas silenciou — blindou. Gravou vídeo pedindo Pix para Naime, nunca rompeu com o colega, e ainda manteve a ASOF como trincheira de proteção para oficiais processados pelo STF, enquanto praças seguem abandonados e perseguidos pela mesma estrutura que Leonardo alimenta.

https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/policia-investiga-fraude-e-lavagem-de-dinheiro-por-coronel-da-pmdf#:~:text=O%20coronel%20Leonardo,de%20recursos%E2%80%9D%2C%20afirmou.
Leonardo não representa “os perseguidos”. Ele protege quem tem motivo real para temer a Justiça.
11. Conclusão: o sistema entrou em colapso
A denúncia funcionou. E a reação do alto comando escancarou o desespero: um fugiu pedindo aposentadoria, o outro gravou vídeo atacando o denunciante.
Enquanto isso, a tropa continua pagando caro por um sistema escuro, manipulado e protegido por oficiais que vivem à sombra da transparência.
Mas agora o jogo virou. Com estrutura política, jurídica e coragem pública, a caixa-preta da saúde da PMDF não vai resistir por muito tempo.
Quem sempre operou no escuro, que tema a luz.









